Gumball 3000 já está na estrada
Já teve início mais uma edição do Gumball 3000, com partida em Copenhaga e a Meta em Monte-Carlo, no fim de semana do Grande Prémio de Fórmula 1
Ler maisJá teve início mais uma edição do Gumball 3000, com partida em Copenhaga e a Meta em Monte-Carlo, no fim de semana do Grande Prémio de Fórmula 1
Ler maisTalvez a máquina e o corpo sejam um só. Esta não é uma fantasia da ficção científica com naves espaciais, mas sim o presente, na inglaterra rural. Com motas...
Ler mais
Pessoas como o James May consideram a geração atual um bando de fãs de computadores de dedos limpos que não sabem mudar uma vela de ignição, quanto mais fazer alguma coisa de raiz. Parvoíce. O espírito do engenho e da engenharia está bem e recomenda‑se. Talvez não exista em mim nem no leitor, mas é certo que anda por aí.
Agora, agradeço que não goze comigo. Estou a restaurar o meu Land Rover de 1956. Sozinho. Já mencionei este restauro anteriormente, mas o projeto a modos que parou quando descobri que a travessa traseira do meu carro veio de um modelo posterior. Não é nada de grave, mas a travessa tem de ser personalizada para este carro em especial já que todos os Land Rover antigos têm formas e dimensões diferentes e é impossível seguir esquemas de engenharia para fazer a reparação porque estariam errados. O ideal é deixar a parte antiga do chassis na sua posição e usá‑la como referência para soldar a nova, que assim ficará na posição certa.
O meu amigo Hadrian, um engenheiro, foi até à minha casa com o material necessário à operação, incluindo o novo pedaço de chassis. O seu plano era sentar‑se numa cadeira a devorar um saco de pipocas enquanto eu fornecia a diversão – ao incendiar a oficina e cegar‑me na tentativa de soldar a travessa. Excelente plano.
É que soldar é muito complicado. Em especial quando soldamos em zonas de difícil acesso, como num Land Rover da primeira série dentro de um celeiro. Por fim, a compaixão mecânica de Hadrian suplantou a sua crueldade, e ele não resistiu a ajudar‑me. Tirou a máquina de soldar da minha mão trémula e despachou o trabalho com a facilidade e precisão de um neurocirurgião de fato.
No dia seguinte, fui com a minha filha a um rali de carros vintage numa aldeia vizinha. Contenha o riso novamente. Também tenho um carro vintage, um Sunbeam 25 de 1933. É muito, muito antigo, e não é nada fácil pô‑lo a trabalhar, mas lá conseguimos chegar ao destino. Estacionámos o carro junto aos outros chaços igualmente antigos para que a população local os pudesse admirar ou rir das antiguidades.
Uns minutos depois apareceu um amigo meu, o Dave, num Morgan 3Wheeler original. Aquela coisa é tão terrivelmente complexa de operar que tem oito ou nove alavancas a germinarem do volante como se fosse um ouriço‑do‑mar cromado. Não basta que o condutor saiba como funcionam todas as peças do carro – é necessário compreender a composição química das mesmas ao nível atómico.
Percebi que este tipo profundo de conhecimentos era partilhado por todas as pessoas que conheci. O manual do meu Sunbeam aborda o género de operações de manutenção do quotidiano que convinha saber para utilizar o carro. Coisas como retificar as válvulas, mudar um eixo ou reconstruir a cambota. Claro que os tempos mudaram e já não há pessoas com este género de conhecimentos. Tretas! Há milhões de pessoas por aí que percebem destas coisas. Todas as pessoas com quem falei sabiam o que se passava com um motor ao ouvi‑lo uns segundos a trabalhar, e falavam em empobrecer a mistura ou avançar ligeiramente a ignição para tornar a combustão mais eficiente. Eu até pensava que sabia umas coisitas sobre carros mas, ao que parece, sou um autêntico idiota.
Ewan, o irmão do Dave, constrói motores para o Morgan 3Wheeler original, totalmente de raiz. Os blocos de metal que entram na sua oficina são trabalhados e maquinados, e sofrem mais uma série de transformações que desconheço, e saem da oficina motores bonitos e em perfeito estado de funcionamento. É uma espécie de magia. Eu mais depressa operava com sucesso a minha própria coluna vertebral do que fazia um motor. Mas o que é certo é que o Ewan faz motores, e o Dave provavelmente também tem conhecimentos para isso, tal como metade das centenas de pessoas que conheci naquele dia.
É possível que existam menos pessoas deste tipo do que há muitas décadas atrás, numa era em que um carro podia vomitar as suas entranhas no meio da estrada a qualquer momento, mas as competências ainda estão lá, e são transferidas de uma pessoa para outra da forma tradicional, através da música popular ou da simples conversa. No futuro, estas competências – e as pessoas que as possuem – tornar‑se‑ão valiosas à medida que escassearem, e muito em breve as únicas pessoas que conseguirão ter carros antigos são aquelas que os compreendem. Acho que se trata de um género de seleção natural do mundo automóvel. Seja como for, tenho um enorme manual do utilizador para ler, para ver se da próxima vez compreendo qualquer coisa do que estas pessoas falam.



