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Crónicas // Jeremy Clarkson

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Jeremy Clarkson sobre a violência

18:24 - 09 ago 2012

É possível que já tenha ouvido falar do futebolista Joey Barton. Fora do relvado, ele é agressivo, e nos últimos anos passou algum tempo na prisão por agressão. Foi inclusive considerado culpado de agressão qualificada. E atropelou uma pessoa às duas da manhã em Liverpool. E as coisas no relvado não são muito diferentes. Ele já foi castigado por esmurrar um adversário no peito; e na última jornada da excitante Premiership deste ano olhou para a garganta de um dos adversários e pensou claramente: “Seria muito bom se eu lhe desse uma cotovelada ali.” E assim fez. O árbitro mostrou‑lhe o cartão vermelho, e ele reagiu a isso com um pontapé num outro adversário e uma tentativa de cabeçada num outro. Como resultado, foi rotulado como um jogador problemático pela grande maioria dos fãs. Mas eu não sei se têm razão.

Regra geral, não bato nas pessoas, a menos que se chamem Piers Morgan. Passei todos os anos de escola sem bater em ninguém. Até permaneci calmo quando uns miúdos do Doncaster puseram cocó de cão no meu chapéu da escola porque eu tinha levado um cachecol do Chelsea. Só derramei umas lágrimas. No entanto, apesar de não esmurrar o James ou o Richard no peito, compreendo perfeitamente que certas pessoas, como Barton, sintam a necessidade de espancar os seus colegas e rivais.

Isto foi explicado muito bem pelo membro trabalhista do parlamento Eric Joyce, que, no início do ano, enquanto bebia um copo no bar da Câmara dos Comuns decidiu bater em dois conservadores. Ele diz que é esse tipo de homem. Há quem resolva as questões com uma caneta, outros recorrem à lei. Ele usa os seus punhos e acha que quem prefere resolver as discussões nas traseiras de um bar, ninguém tem nada a ver com isso. E ele tem toda a razão.

Além do mais, é essencial ter todos os géneros de pessoas no Parlamento, para que estejam representadas todas as camadas da sociedade: os janotas, os vagabundos, os mentirosos, os batoteiros, os vigários... e quem anda à porrada em bares. É que a única forma de representar o povo é ser representativo do mesmo. Aliás, vou mais longe. Por vezes vemos imagens de parlamentos de outros países reduzidos a uma confusão de murros e suor, e acho que, de tempos a tempos, gostaria de ver algo semelhante acontecer no inglês. Digo o seguinte ao Senhor Cameron: quando o Senhor Miliband estiver a ser chato, salte sobre a mesa e dê‑lhe um pontapé na virilha.

Gostaria de ver este tipo de atividade em Wimbledon. Andou a suar a vida toda. A treinar e treinar, sem consumir bebidas alcoólicas, sem fumar, a sacrificar tudo o que a vida tem de bom para ser o melhor dos melhores. Está no match point. O serviço é fora, mas o juiz de linha, um professor de geografia idoso com um chapéu idiota, diz que é dentro. A sua vida vai por água abaixo. Quem é que o iria censurar se, no calor do momento, corresse até ao juiz e lhe desse com a raquete? Lembra‑se de Nelson Piquet a pontapear e esmurrar o inútil Eliseo Salazar? Lembra‑se de Michael Schumacher a “discutir” umas coisas com David Coulthard? Compreendo‑os bem. Não só compreendo como gosto. São momentos como esses que nós tanto apreciamos e esperamos.

Na América, as pessoas assistem aos jogos de hóquei no gelo por causa das lutas, e não pela velocidade dos jogadores e a precisão dos remates. Cá, os jogadores de râguebi são sempre aplaudidos efusivamente quando dois deles começam a trocar golpes certeiros. E quando o resto das equipas se junta à luta, então....

O problema é que hoje em dia estamos programados para não perdermos a calma. Para darmos a outra face. E por mim, tudo bem. Não queria nada ser esmurrado. Mas no desporto e na política, onde as emoções estão – e ainda bem que é assim – sempre ao rubro, é desumano inspirar fundo e ignorar esses conflitos. É provavelmente por isso que muitas das estrelas do desporto e a maioria dos políticos são tão robóticos e monótonos.

Isto tudo leva‑me a uma fotografia que vi recentemente nos jornais. Era um senhor de meia-idade que pedalava na sua bicicleta numa estrada secundária enquanto era pontapeado por uma jovem. Ao que parece, ele circulava muito devagar pelo meio da estrada, e a mulher decidiu ensinar‑lhe uma lição. Toda a gente disse que a mulher era uma ameaça e que devia ser enfiada numa prisão para todo o sempre. É que, embora aceitemos que alguém ceda à agressividade no calor do momento num recinto desportivo, é totalmente incorreto agir dessa forma na estrada.

No entanto, antes de prendermos a mulher, façamos a seguinte pergunta: então e se a senhora tivesse recebido a notícia de que a mãe tinha ido para o hospital e estava às portas da morte? E se, enquanto estava atrás do lento ciclista, recebesse a notícia de que a mãe tinha morrido? Seria então aceitável que a mulher pontapeasse o homem por ter impedido que esta se despedisse da sua mãe moribunda?

Eu próprio sou frequentemente retido por alguém que conduz na A44 a uma velocidade que considera segura. E normalmente essa pessoa é idosa – as suas reações são lentas e só se sente seguro a menos de 40 km/h. Para além disso, os idosos não têm pressa e pensam que o mundo seria um lugar melhor se as outras pessoas também não tivessem pressa. Portanto, não sentem qualquer tipo de culpa por terem atrás de si uma cauda de metal em sobreaquecimento. Secretamente, até acho que se sentem poderosos.

Normalmente, tenho paciência para isso. Se puder ultrapassar, ultrapasso, mas quando não posso limito‑me a pôr uma música calma no carro e a relaxar. Mas então e se eu trabalhasse na divisão de minas e armadilhas e tivesse apenas alguns minutos para chegar ao sítio onde os terroristas tinham posto uma bomba? E se a minha esposa estivesse em trabalho de parto? E se uma criança precisar do seu pai? Esses são momentos tensos, em que a raiva se acumula, e não se pode censurar quem abalroar o irritante Peugeot do idoso e o mandar para a berma.

Também os ciclistas perdem as estribeiras constantemente, e eu não os censuro. É que quando o motorista de um autocarro, impelido pela sua estupidez ou arrogância, vira à esquerda sem fazer pisca e quase mata o ciclista com as rodas de trás, quem vai na bicicleta transforma‑se num saco de pele cheio de dopamina e serotonina e adrenalina. Fica‑se com o estado de mente de um coelho assustado. E ninguém o vai censurar se entrar no autocarro, abrir o fecho e urinar no motorista.

E aí temos. Violência. Detesto‑a. Tenho pavor dela. Os punhos humanos deviam ser feitos de algodão. Mas às vezes? Humm!

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