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Crónicas // Jeremy Clarkson

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Jeremy Clarkson e a indústria dos pneus

16:29 - 21 jun 2012

Há muitos, muitos anos, tinha Tiff Needell os seus sessentas e tais, o rei da televisão foi enviado por uma revista de corridas a uma pista no sul de França onde a Pirelli tinha um evento para testar pneus. A Pirelli escolheu uma série de carros, e os jornalistas podiam experimentá-los com diferentes pneus para verem com os próprios olhos como os produtos Pirelli eram mesmo melhores e mais velozes. O tio Tiff passou o dia inteiro a acelerar pela pista, a velocidades bem acima das dos outros convidados. Essa noite, ligou para o editor da revista de corridas a dizer que não iria apresentar reportagem nenhuma porque “os pneus eram todos exatamente iguais”.

Imagine o horror dele quando, semanas mais tarde, começaram a aparecer os textos dos jornalistazecos que tinham ido ao evento. Pessoas que ele tinha ultrapassado vezes sem conta. Todos diziam maravilhas dos pneus Pirelli, mencionando derivas, subviragens e aderências. A metade da velocidade, conseguiram notar um milhão de coisas que Tiff não notou. Não admira. As “coisas” não existiam. Os outros repórteres simplesmente inventaram tudo como agradecimento por terem podido beber o bar inteiro. Ao longo dos anos, escreveram-se mais futilidades sobre pneus que qualquer outro componente automóvel. Posso dizer-lhe, se quiser ser mesmo aborrecido, que os Pirelli perdem rapidamente a garra e que os Dunlop fazem muito fumo. Mas no fundo, nada mudou desde que Tiff passou o dia em França com todos aqueles De Dion‑Boutons e Frazer Nashes. Os pneus eram pretos e redondos. Ainda são. Ponto final.

Mas não é bem ponto final, porque agora os pneus também são outra coisa: complicados, estupidamente caros e a três continentes de distância de onde se faz um furo. Vejamos o caso do novo Porsche 911. No domingo passado saí de casa e vi que um dos pneus traseiros estava furado. Não há sobresselente, claro, para não aumentar o peso. O peso, quando se quer obedecer às regras de emissões da UE, não é coisa boa. A outra razão para não haver sobressalente é que as rodas dianteiras do Porsche são mais pequenas que as traseiras. Ia precisar de dois. Mas não faz mal, como não há sobressalente, com certeza a Porsche tem armazéns em todo o sítio cheios de pneus e uma equipa em standby 24 horas por dia para entrar em ação sempre que for preciso resgatar o homem ou a mulher com o carro de cem mil euros naufragado.

Nada disto foi feito. Liga-se para o número de emergência na parte de trás do selo, eles voltam a ligar sete vezes, vem um camião, leva o carro, e é só. Patético. Mas é ainda pior, porque, há uns anos, um amigo meu teve um furo num pneu traseiro do GT2 e a Porsche levou duas semanas a procurar um substituto. E a Porsche não é a única culpada. Posso garantir-lhe que, para quem tem um carro exótico, não há pneu num raio de mil quilómetros que lhe sirva.

Não é difícil imaginar porquê. Há relativamente pouco tempo, a altura da banda lateral era 70 por cento da largura do pneu, ou, nos modelos mais desportivos, 60 por cento. Hoje em dia, a altura tanto pode ter 55 por cento, 40 por cento ou 35 por cento desse valor. E são 35 por cento de uma gama de larguras também ela incrivelmente aumentada. Depois ainda há a maior escolha de dimensão das rodas. E, verdade seja dita, não é armazém de pneus pequeno em Stroud que vai ter em stock um 345/35/15 para o caso de um Lamborghini Countach que por lá passe fique com o pneu furado. Aliás, se não tiver um Golf a diesel ou um Focus, não vai encontrar o que precisa em nenhuma parte da Grã-Bretanha. Nem na América, ao que parece. Quando esfarrapei os pneus traseiros de um Mercedes SLS na Carolina do Norte o ano passado, não havia substitutos no estado. Tive de conduzir 160 km, à chuva, em lona.

Isto. Tem. De parar. Os importadores de automóveis têm de se certificar de que cada pneu usado em toda a gama está no país e disponível sete dias por semana. Se for muito caro, então deviam dizer a quem desenha o chassis para deixar de ser esquisito.

Mas não pense que o meu problema é só com os carros caros. Eu tenho um Volvo XC90 que é usado como autocarro escolar e logo não é conduzido com tanta intensidade, mas o mais que consigo andar sem precisar de quatro pneus novos são 14.500 quilómetros. É escusado. E muito caro. Porque substitui-los a todos custa € 1.200. Para fazer duas vezes por ano como eu faço é preciso ganhar € 2.400 por ano só para os pneus que são precisos para levar os miúdos à escola. É de loucos. E não acaba aqui. Os traseiros do meu Mercedes CLK Black rebentaram no outro dia, de repente, enquanto estava numa rotunda, e o carro rodopiou. O incidente custou‑me a minha dignidade e perto de € 800. Já cheguei quase ao ponto de gastar mais em pneus que em comida.

E eles gastam-se cá com uma rapidez. Porquê? Bem, porque hoje em dia os carros são tão pesados que os pneus têm de ser largos, o que significa que fazem uma barulheira desgraçada. Assim, para não ultrapassar os limites sonoros da UE, têm de ser feitos de materiais leves, que se gastam rápido.

Quer outro exemplo da loucura que são os pneus? OK. Quando tentei levar ao máximo o Lamborghini Aventador em Nardò para o filme que mostrámos no primeiro episódio, reparei que sempre que engrenava uma relação acima o carro pendia para a esquerda. Por momentos pensei que teria de desistir da velocidade máxima, mas depois um responsável da Lambo chamou‑me à parte e explicou-me, baixinho, que existem pequenas diferenças entre os pneus que lhes enviam, e que isso pode fazer com que o carro se comporte de outra forma. Mudámo‑los e correu tudo bem.

Quer isto dizer que um homem compra um Aventador e é excelente. Outro compra um carro supostamente idêntico e é terrível. Sei que este mês tenho andado um pouco “gritão”, mas incomoda-me o negócio dos pneus. Incomoda-me tanto que vou fazer aqui um apelo.

Fabricantes de automóveis: nunca deixem uma empresa de pneus criar um pneu à medida para o vosso carro. Porque sabem muito bem que não vão conseguir oferecer um sobresselente aos clientes dentro de uma semana.

Fabricantes de pneus: eu sei que os materiais leves dão dinheiro, se há coisa que não sou é contra o lucro. Mas não podem criar um meio-termo em que eu não tenha de gastar os pneus do meu Volvo a diesel a cada seis meses?

E para si, o cliente. É fácil. Sempre que comprar um carro sem pneu sobressalente, faça algumas chamadas antes de passar o cheque. Veja quantos armazéns de pneus têm sobresselentes. Se a resposta for nenhum, compre outra coisa qualquer. Agora pode ser aborrecido, mas espere até prometer à sua mãe que a leva ao hospital e depois o pneu furar e ter de encostar o carro. Aí vai perceber a sabedoria.

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